21/08/2014

Vamos falar sobre a lei 13.006 de 26 de junho de 2014

No dia 26 de junho de 2014 entrou em vigor a lei 13.006 que acrescenta um parágrafo no artigo 26 da lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996, conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), estabelecendo a obrigatoriedade da exibição de, no mínimo, 2 horas mensais de filmes de produção nacional nas escolas de Educação Básica. O projeto original que deu origem à lei partiu do senador Cristovam Buarque e aponta como objetivo que a exibição dos filmes nacionais constitua se como componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola. Tão interessante quanto a lei são os relatórios que foram gerados durante o processo de criação da mesma e aconselho a lerem para saber como os deputados e senadores compreendem a relação entre audiovisual e educação (deixo aqui o link). Sem dúvida, os conteúdos destes relatórios são tópicos de debates para uma outra postagem, pois ali estão argumentos e definições que interferem sobremaneira na condução de uma proposta mais coesa e consistente de um projeto amplo de Educação Audiovisual.

Educação Audiovisual? E esta lei? Não é isso?

Ao ser sancionada, a lei criou a obrigação da exibição de 2 horas de filmes nacionais na Educação Básica integrada à proposta pedagógica da escola. Ponto. Esta é a lei... Ela é pontual, direta... E este caráter faz com que achemos e nos mexamos para resolver um problema que a lei trouxe. Que loucura! Não há uma proposta mais ampla que compreenda os filmes nacionais, ou melhor, assistir os filmes nacionais como sendo parte de um processo muito mais complexo e urgente de Educação Audiovisual.

A lei serve para levantar este debate e não para encerrá-lo. Como se dará a formação de docentes para trabalhar com o audiovisual integrado em uma proposta pedagógica? Como constituir currículos que compreenda o audiovisual como uma linguagem em diálogo com outras áreas do conhecimento? Como compreender o universo audiovisual que os e as estudantes já trazem para escola no seu processo contínuo de formação? Como articular escola, comunidade e audiovisual com as questões presentes na contemporaneidade? Como suprir a infraestrutura básica para uma exibição audiovisual na escola?

Esta são algumas questões que nos mostram o quão amplo este debate é e precisa ser. A exibição de filmes nas escolas não pode ser mais um evento que sirva para preencher horários ou como recurso punitivo. Há uma pluralidade pedagógica neste evento que precisa ser pensado, planejado e executado e que permite contribuir com a construção de uma alfabetização crítica dos meios que utilizam os recursos audiovisuais: cinema, televisão, internet, etc.

É possível levantarmos uma infinidade de atividades que podemos realizar com o audiovisual nas escolas. Isto é importante, mas não podemos ficar só nisso... As atividades são importantes desde que sejam pensadas e articuladas com uma proposta pedagógica mais ampla. É preciso caminhar: agindo e pensando... construindo e transformando...

07/07/2014

Por uma comunicação de saberes...

Há uma certa compreensão sobre a comunicação que coloca duas pessoas em dois polos que se relacionam: emissor e receptor. Como se uma linha direta levasse o que precisa ser comunicado para o outro. Se isto não acontece é porque houve falhas em um dos dois polos ou no meio.
Mas será que a comunicação é só isso?
Esta simplificação banalizadora do processo comunicativo já suportou uma linha tecnologista que, sistematicamente, vem atuando nesta ideia de emissor - meio - receptor, ao ponto de que a comunicação, muitas vezes, é confundida com a própria tecnologia e, por extensão, com as próprias empresas que exploram comercialmente o ramo da comunicação.
Aí alguém levanta e diz: "mas a internet acabou com isso"... Aí eu suspiro e digo: não resta dúvida que a internet interfere no processo comunicativo, sobretudo, na proliferação de emissores, ampliando perspectivas e agilizando o fluxo das informações. Todavia, o esquema emissor - meio - receptor não se modifica, apenas se multiplica em emissores - meios - receptores.
O que muda, então? Com certeza há mais pessoas se expressando, há mais grupos se expressando, mas será que há mais pessoas ouvindo, e eu disse ouvindo e não recebendo. Há uma diferença muito grande entre receber informações e ouvir.
Talvez resida aí uma das principais transformações que se possa levar a cabo para o processo de comunicação: ouvir... E não há aí nada de revolucionário, embora a velocidade das coisas, na contemporaneidade, transforme qualquer momento de contemplação, de calma, de tranquilidade, de audição em algo revolucionário ou, na maioria das vezes, em algo retrógrado.
Como ficariam as teorias da comunicação se tivessem que incorporar em suas ideias, princípios, pressupostos e propostas processos comunicativos que se dão entre o ser humano e a natureza, como, por exemplo, quando o bem-te-vi avisa que vem chuva... Quanto de sabedoria estamos perdendo pelo fato de não sabermos mais ouvir o céu, a terra, a água, a alma, o silêncio, o outro? Talvez a velocidade da informação esteja atropelando o andar vagaroso e persistente da sabedoria... Olhe para o retrovisor e veja quantos saberes ficaram para trás... Há um retorno logo ali... 

23/01/2014

Somos criadores de imagens... imaginem!

Uma das capacidades mais humana que temos é a criação. O ato de criar, em todos os sentidos, é vital para as pessoas, comunidades, culturas, etc. Se olharmos ao redor nos depararemos com uma infinidade de criações que nos circundam e que nos fazem conduzir a vida. Muitas vezes as criações, materializadas em objetos, acabam dominando a própria vida que, ao invés de ser vivida, acaba sendo clicada, plugada, dissipada em nuvens de futilidades. Porém não é por este caminho que esta postagem vai seguir, embora seja uma trilha para uma próxima reflexão.

O ato criativo, a criatividade, para quais chamo a atenção neste curto texto, nos remete à uma característica intrínseca ao processo de criar e que nos proporciona um momento pedagógico de relações entre o indivíduo e o mundo em qual está inserido. Esta característica intrínseca ao processo criativo é a capacidade de criarmos imagens quando pensamos, quando sonhamos, quando lembramos, quando falamos, quando ouvimos, enfim, quando imaginamos.

A imaginação, ou o ato de criarmos imagens, muitas vezes nos permite olhar para o mundo, para o eu, para os outros e redescobrir o passado, que se envereda em passados, e reprojetar o futuro que se ramifica em possibilidades a serem projetadas.

Os pensamentos, os sonhos, as lembranças, as memórias, as imaginações são tão constituintes do ato de viver que, muitas vezes, não nos damos conta de que passamos o dia todo criando. E quando olhamos para este processo, que se manifesta tal qual o ato de respirar, podemos encontrar elementos que nos façam aprender a ouvir, observar, olhar, sentir... Ora, não são as sensações a matéria-prima para criarmos imagens!


Muitas possibilidades pedagógicas podem ser desveladas quando nos damos conta que somos criadores de imagens e que estamos vivendo num mundo ávido por imaginações!

04/10/2013

Algumas pedagogias da expressão no ambiente escolar

A introdução de meios que estimulam a expressão na escola permite outros olhares para o processo educativo. Meios de expressão tais como rádio, audiovisual e também as diferentes linguagens artísticas incentivam a participação de estudantes que, muitas vezes, "não vão tão bem" na escola. Por que isto acontece?
Esta é uma pergunta interessante, cuja resposta nos apresenta uma série de fatores. Talvez, logo de início, a novidade seja o ponto de partida. Há algo acontecendo de novo! Uma ação artística ou comunicativa que somente se efetiva com a participação dos estudantes não é, amiúde, incentivada no sistema educativo. Esta novidade já é responsável por aguçar a própria curiosidade que é fundamental para um processo educativo pautado na expressão. 
A escola, com seus métodos muitas vezes rígidos, condiciona o corpo e o comportamento. O estático, o mudo, o parado, o quieto é confundido com a disciplina correta e corrente que se deve exercer no ambiente escolar. Ora, a expressão só vive do movimento. A vida é movimento. Atividades artísticas e comunicativas estimulam o movimento em todos os âmbitos: mover-se pela escola, aproximar-se do outro, sentir o corpo em convívio com o espaço e com os outros, observar os movimentos das coisas, dos sons, das pessoas, do tempo...
Quando a curiosidade, aliada ao movimento, é estimulada em processos artísticos ou comunicativos no ambiente escolar caminhamos para unir a expressividade à própria vida da comunidade. O que se fala, o que se sente, o que se ouve, o que se pensa, o que se cala, o que se repensa está enraizado no espaço e no tempo em que a escola está inserida.
Expressar-se na e com a comunidade escolar significa compartilhar um projeto em comunhão e ressignificar o espaço e o tempo da escola, o estar e o ser na e com a escola...
Neste caminho, em que a expressão é incentivada, encontramos processos educativos que se enredam em curiosidades, movimentos, em espírito comunitário, propiciando olhares mais críticos e mais sensíveis, propiciando sentires e saberes mais humanos...
Talvez seja por isso que aquele que "não vai tão bem" na escola que conhecemos consiga "ir tão bem" nas atividades artísticas e comunicativas no ambiente escolar, talvez esteja reencontrando sua humanidade...

31/07/2013

Como pensar e praticar a relação entre audiovisual e educação?

Esta postagem tem o intuito de apresentar a questão de como podemos pensar e praticar a relação entre audiovisual e educação, ampliando esta questão em perspectivas mais complexas.

Em 2011, escrevi, aqui neste blog, a proposta de pensarmos a relação entre audiovisual e educação como culturas que condicionam visões e posturas diante do mundo. Esta postagem pode ser acompanhada aqui: Tecnologia Educativa: ferramentas, processos, culturas...

O caráter provocativo desta questão está no desafio de tentarmos pensar e agir fora dos esquemas educativos e comunicativos. Isto implica em "ouvirmos" outros conceitos fundamentais que estão no cerne da relação entre o audiovisual e a educação.

A intenção, portanto, é refletir sobre as questões que se seguem e buscar melhorar nossas práticas. Mais uma vez fica o convite para o diálogo. Abaixo trago as questões para pensarmos, agirmos, trocarmos...

Como pratico o diálogo? Qual é o papel da curiosidade nesta relação? Como torno esta relação mais crítica, participativa, criativa, colaborativa

Se eu estiver trabalhando em uma escola, como posso lançar mão da relação entre audiovisual e educação para conseguir uma maior integração entre a escola e a comunidade? Como é possível exercitar o olhar, o ouvir e o sentir?

Como a relação entre o audiovisual e a educação pode contribuir para exercitar o espírito de comunidade, de solidariedade, de amor, de convivência?

Estas são algumas questões. Está lançado o desafio!

02/05/2013

O popular se constrói nos embates políticos: a educação e a comunicação na Venezuela

Antes de escrever estas poucas linhas fiz uma experiência muito simples nos dias de hoje. Entrei no site de busca Google e digitei uma palavra que queria pesquisar. A palavra escolhida foi: Venezuela. Esta foi a experiência. Fiz uma coisa que muitas pessoas fazem: antes de pensar, pesquisar e olhar com criticidade o que está chegando de informação até nós; digitei Venezuela e logo me apareceram algumas sugestões. 
Não foi o meu espanto que as buscas retornaram sites de grupos de comunicação que tratavam de algum tema relacionado a este país, na ocasião era a briga que aconteceu no parlamento e, também, um link para o site da CIA que trazia um dossiê sobre este país e outro para o New York Times, ambos em inglês. A primeira página que o buscador me ofereceu não trazia, por exemplo, nenhum site do próprio governo venezuelano, nada. 
Devo reforçar que o resultado desta experiência banal não teve nenhum critério a não ser reproduzir o que milhares de pessoas fazem cotidianamente pelo mundo: "entrar no Google".
A opção pela palavra Venezuela foi para destacar que este país vem construindo junto com a população venezuelana inúmeras iniciativas que visam o fortalecimento da comunicação popular e a erradicação do analfabetismo.
Podemos acompanhar que desde 2008 o Ministério del Poder Popular para la Comunicación y la Información vem trabalhando para implantar um sistema de comunicação popular. Primeiramente foi proposto o Sistema Nacional de Comunicación Popular, Alternativa y Comunitaria que, atualmente, deu lugar para a atuação do Sistema Bolivariano de Comunicación e Información. Esta propostas, concretizadas em projetos, é uma demonstração do Estado venezuelano de construir políticas públicas para o fortalecimento da comunicação popular.
Estas propostas partem do princípio de que o povo venezuelano, nas suas mais diversas regiões, é quem precisa exercer o protagonismo de seu próprio processo de comunicação. Isto significa um embate político com grandes conglomerados de comunicação.
Quando a Venezuela assume o popular como projeto político, evidencia-se dois projetos de sociedade: àquele que é imposto, alheio ao povo e às organizações populares e um outro que é construído junto com o povo, junto com as organizações populares. 
Neste terreno, a comunicação é um elemento fundamental. Primeiramente, as grandes corporações empresariais de comunicação vão se articular para produzir informações que terão como objetivo a defesa daquele projeto de sociedade construido nas bases do economicismo e da exploração. Contra este propósito, uma outra comunicação é proposta. Aquela que nasce do próprio cotidiano dos grupos populares e que vai crescendo e se ampliando em rádios comunitárias, meios comunitários, comunicadores e comunicadoras populares... Venezuela nos aponta um caminho interessante para que a comuncação popular seja um processo de transformação das ideias e da própria dinâmica social no contexto da América Latina... Deixo aqui um link que não será encontrado tão fácil no Google quando você digitar Venezuela: http://www.minci.gob.ve/medios-comunitarios/

14/01/2013

Diálogo com Paulo Freire ( II ): uma pedagogia da esperança

Esta postagem é um diálogo com o livro Pedagogia da Esperança escrito por Paulo Freire. A referência à edição do livro é a seguinte: FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido.13ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006. 
Como se trata de um diálogo, algumas vezes serão feitas menções à alguns trechos do livro.
Paulo Freire exemplifica com momentos de sua experiência que o levaram a gestar e partejar o livro Pedagogia do Oprimido: o caso do dentista e abandono da advocacia; seu trabalho no SESI; as pesquisas nas escolas (zona da mata/agreste/sertão) acerca da relação entre família e escola, no tocante aos castigos e aos prêmios; o mal estar da infância em Jaboatão que interferiu por muito tempo em seu humor; a sua relação com o exílio, com os exilados e com as pessoas que o recebeu em outros chãos; o seu trabalho com os camponeses no Chile e sua relação com o MIR (Movimento Independente Revolucionário); sua experiência em educação com negros e porto-riquenhos em Nova York... Todos estes momentos, que aparecem revisitados pelo autor de forma apaixonada e crítica, foram fundamentais para a realização da Pedagogia do Oprimido.
Há um destaque para a linguagem como elemento vital da prática pedagógica e sugere que uma das questões centrais da educação popular é “a da linguagem como caminho de invenção da cidadania” (p.41). Tomar a questão da linguagem de forma ética significa não sobrepor uma visão de mundo pela outra pelo fato de ignorar o universo vocabular com quem se busca o diálogo. É necessário compreender a linguagem dos grupos populares, não apenas aquela dita ou escrita, mas também aquela que se comunica no gestual, nos olhares e nas manifestações culturais. Este movimento também precisa ser feito pelo educador, pesquisador na busca das palavras que serão usadas na tentativa do diálogo. Esta é uma tarefa difícil, porém, radical no processo de educação popular. “Mudar a linguagem faz parte de mudar o mundo. A relação entre linguagem-pensamento-mundo é uma relação dialética, processual, contraditória” (p. 68).
Tomar a questão da linguagem de forma ética significa compreender que o jeito de se comunicar está enraizado no contexto sócio-cultural da realidade concreta em que se dá o processo da comunicação. “A localidade dos educandos é o ponto de partida para o conhecimento que eles vão criando do mundo” (p.86). Há, portanto, um saber que se dá neste mundo que se vai vivendo. Há aí um “saber de experiência feito” (p. 71) que precisa ser respeitado e tomado como ponto de partida para superá-lo em uma perspctiva pedagógica de libertação e humanização.
A linguagem, portanto, não é só meio de diálogo, mas, sim o próprio diálogo que vai se nutrir na confiança, no respeito, no constante compartilhar. Aqui podemos encontrar um terreno fértil para uma pedagogia da libertação. 
Mais adiante, Paulo Freire nos apresenta como a Pedagogia do Oprimido se enveredou pelo mundo, em caminhos de constantes debates e embates, adentrando universidades e órgão governamentais e sendo convidado por camponeses (p. 164 / p. 189 / p. 195), guerrilheiros (p. 146 / p. 166 – 174), indígenas (p. 184), imigrantes (p.123 – 141), num esforço militante de contribuir para a construção de um mundo mais humano. Com este objetivo que Paulo Freire denuncia às discriminações raciais, culturais, de gênero e de classe, sempre se posicionando contrário ao autoritarismo de direita e ao sectarismo dogmático de esquerda que impedem a curiosidade e o papel ativo dos sujeitos em um processo de diálogo (p. 115 / p. 117). Freire também nos apresenta alguns conceitos chaves que, no espaço deste postagem, destacaria a “conscientização” (p. 105 – 110) e a “unidade na diversidade” (p. 151 – 157) que se articulam em um processo de ação-reflexão, ou seja, uma educação que não se fecha nos livros e nas abstrações do pensamento, mas que se dá no diálogo entre reflexão e ação, nas mais diversas práticas sociais. Conscientização, dialogicidade, humanização são conceitos que se interfecundam no pensamento de Paulo Freire. Através do diálogo intersubjetivo, é possível construir, em comunhão, uma consciência crítica da realidade que, por conseguinte, num movimento dialético entre reflexão-ação, caminha para um processo de libertação com o intuito de “ser-mais”, humanizando-se. A tomada de consciência de uma situação de opressão não implica, pois, a transformação desta situação. Estamos no nível da reflexão. Tampouco a ação, desprovida da reflexão, se constitui em transformação. Contudo, numa perspectiva dialógica, “os sujeitos se encontram para a transformação do mundo em co-laboração” (trecho do livro Pedagogia do Oprimido).
A “unidade na diversidade” é uma proposta de estratégia para se transformar o mundo em co-laboração que exige o reconhecimento do verdadeiro opressor que impedem as “minorias” de serem-mais, ao mesmo tempo, que exige uma aproximação entre estas “minorias” em um movimento que submeta o sectarismo à visão crítica de estarem sendo no mundo sendo. Nesta perspectiva, Paulo Freire nos aponta alguns desafios e tarefas para a educação popular. O primeiro, como foi dito acima, o da linguagem:
 
Ai está uma das tarefas da educação democrática e popular – a de possibilitar nas classes populares o desenvolvimento de sua linguagem, jamais pelo blablablá autoritário e sectário dos 'educadores', de sua linguagem, que, emergindo da e voltando-se sobre sua realidade, perfile as conjecturas, os desenhos, as antecipações do mundo novo. Está aqui uma das questões centrais da educação popular - a da linguagem como caminho da invenção da cidadania” (p. 43).

O segundo, o das relações dialéticas opressores-oprimidos na superação do medo dos oprimidos: “Uma das tarefas da educação popular progressista, ontem como hoje, é procurar, por meio da compreensão crítica de como se dão os conflitos sociais, ajudar o processo no qual a fraqueza dos oprimidos se vai tornando força capaz de transformar a força dos opressores em fraqueza. Esta é uma esperança que nos move” (p. 126).
O terceiro, o ato de ensinar e de aprender que integram o processo do conhecer (p. 111). “O processo de conhecer faz parte da natureza mesma da educação de que a prática chamada educação popular não pode fazer exceção” (p. 132). Conhecer, aqui, em uma perspectiva ampla que alia conhecimentos técnicos com condiciomanetos históricos, sociais e culturais. Sem dicotomizar o técnico do político (p. 133).
O quarto, o de olhar de forma crítica para o nosso passado de luta e resistência, estabelecendo relações entre os quilombos com os movimentos dos sem terras, dos sem tetos, dos sem empregos. “Aproveitar esta tradição de luta, de resistência, e trabalhá-la é uma tarefa nossa, de educadores e educadoras progressistas” (p. 109).

19/10/2012

Diálogo com Paulo Freire ( I ): considerações em torno do ato de estudar


O texto apresentado aqui tem como objetivo estabelecer um diálogo com o texto "Considerações em torno do ato de estudar" escrito por Paulo Freire, no livro "Ação Cultural para a Liberdade".

O ato de estudar exige que o sujeito de tal ato assuma uma postura crítica e um compromisso ético, encarando o estudo como um desafio de se aprofundar o conhecimento. A curiosidade, o espírito investigador, a criatividade, a criticidade e a humildade são elementos importantes para encarar o desafio do ato de estudar. Tais elementos são rejeitados em uma concepção bancária de educação que submete o leitor, o estudante à um processo de memorização de conteúdos. A atitude crítica no estudo estimula a compreensão e o diálogo entre o leitor e o autor o que possibilita a construção e o aprofundamento do conhecimento. O ato de estudar, segundo Paulo Freire, representa “uma atitude em frente ao mundo”, uma vez que o olhar crítico e criativo complexifica a relação leitor-texto, incorporando relações com a realidade concreta e com às práticas que estamos envolvidos. De forma direta, Paulo Freire, ao tecer suas considerações em torno do ato de estudar reforça o diálogo como processo fundamental e fundante para a construção do conhecimento. O ato de estudar que se completa na atitude em frente ao mundo, nos convoca a nos posicionarmos de forma crítica, com compromisso ético e social.

05/09/2012

A questão da legitimação do que seja verdade: os papéis da educação e da comunicação

Quem ou o que diz que algo é certo ou errado? Imagine esta questão aplicada nos contextos escolares? O que determina que algo é certo ou errado, que algo é bom ou ruim, que aquilo faz bem ou que aquilo faz mal não parte de algo dado. Nada é puramente certo ou errado e assim por diante... Certo ou errado, bom ou ruim, bem ou mal são construções culturais que vão paulatinamente, dentro de um esquema funcionalista, sendo legitimado por algumas instituições. Quais instituições? Instituições que desempenham funções específicas e que, portanto, contam com especialistas referendados pela ordem vigente. A escola e a empresa de comunicação são instituições que gozam deste prestígio na atual dinâmica da sociedade. Se deu no jornal, se vi na TV, então é verdade... Se o professor falou assim então não é assado... Estas instituições possuem o poder de legitimar um determinado ponto de vista e, ao mesmo tempo, desqualificar outros tantos... Qual o ponto de vista legitimado? Não esqueçamos que as instituições estão condicionadas pela estrutura política, econômica, social, cultural... A instituição igreja jogou muitos desafetos na fogueira pelo fato de estes se posicionarem contrário à visão dogmática de verdade legitimada pela igreja e tomada como base de sustentação de um poder daquela época... As indústrias e depois as empresas transnacionais também vão legitimar algumas verdades (o papel da publicidade é este) para que possam, dentro da lógica capitalista, conquistarem mais lucros... Eis aqui que as produções científicas oriundas nas universidades, por exemplo, vão legitimar algumas verdades que foram financiadas por algumas destas indústrias ou empresas transnacionais. A indústria farmacêutica vai se apoiar numa pretensa racionalidade científica que, por sua vez, vai desqualificar outros conhecimentos para legitimar o conhecimento científico como sendo o verdadeiro... A educação e a comunicação tomados no âmbito dos sistemas, portanto, vinculados à uma funcionalidade dentro da ordem vigente, são processos estruturantes responsáveis pela constante desqualificação de outros pontos de vistas, de outras perspectivas de mundo que não são nem melhores e nem piores, mas apenas diferentes... Ter consciência destas diferenças e respeito por elas são fundamentais para nos reconhecermos como seres inacabados e que estamos em constante processo de formação com os outros... Precisamos optar em conversar ao invés de tentar convencer. Saramago disse, certa vez, que o "trabalho de convencer alguém é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro".

26/08/2012

As pedras arrebentam...

Há uma tendência muito forte de caracterizar a comunicação como uma grande vitrine onde são expostas valores, ideias, vontades, anseios, desejos... Uma vitrine perversa, como todas as vitrines são: uma parede de vidro que permite ver e quase tocar aquilo que está sendo cobiçado... Talvez a semelhança entre a comunicação e a vitrine tenha uma certa relação com este aspecto translúcido das telas das televisões, dos computadores, dos celulares... São por estas vitrines audiovisuais que desejamos aqueles objetos usados pelos heróis e heroínas e, mais ainda, nos permite sonhar em ser aqueles heróis ou heroínas... O que está sendo vendido? Por que está sendo vendido? Como se faz pra comprar? Será que tenho que comprar? Eis as interrogações que invadem a cabeça de quem se prostra nas frentes das vitrines! Porém estas interrogações de nada adiantam: elas não serão capazes de me fazer ter para depois poder ser, ou ter-ser aquilo que está ali brilhando na minha frente... Me resta buscar aquilo que me está sendo mostrado... É preciso, então, dinheiro e quanto mais estudo maior é a possibilidade de eu acumular mais dinheiro e, consequentemente, maiores serão os corredores repletos de vitrines: mais possibilidades, mais chances de ter, menos chance de nada ser... "É preciso estudar pra ser alguém na vida"... E o que é ser alguém na vida em um mundo em que os valores são vendidos por estas vitrines audiovisuais?
E sem percebermos a educação vira dinheiro, a comunicação vira vitrine e continuamos a caminhar pelos corredores de shoppings centeres que vão estimulando o individualismo, a competitividade, o atomismo, a arrogância, a desumanização e a coisificação da gente...
Se esta é uma condição que está se dando no presente, não significa que tenha que ser uma determinação de um destino imexível... É possível imaginarmos uma outra comunicação, uma outra educação e, imaginando juntos, realizarmos esta outra comunicação e esta outra educação com espírito de comunidade, de altruísmo, de solidariedade, de humanização... Não é preciso dizer que as vitrines são apenas de vidro!